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Trens, macaquinhos e a alegria da criançada



O sistema ferroviário de São Paulo é um dos mais antigos do país e, antigamente, era muito usado para o escoamento de café para o porto de Santos, com destino à Europa. Simultaneamente os trens eram utilizados como meio de transporte público, sendo uma artéria vital na crescente e “próspera” capital paulista.

No entanto, a partir de meados do Século XX, houve uma forte tendência, embasada pela “chegada da modernidade”, que promoveu o sucateamento da linha férrea em pró das rodovias. Os presidentes Washington Luís (1926 – 1930), que sustentava o famoso lema “governar é construir estradas”, e Eurico Gaspar Dutra, principal articulador da construção da Dutra, são as figuras mais ilustrativas dessa política. Atualmente, ainda se nota tal fato visto a proporção de rodovias e ferrovias.

Dentro de São Paulo, entretanto, a linha do trem é bem extensa em relação à do Metro – respectivamente 253,2 quilômetros e pouco mais de 60,5 quilômetros. Mesmo assim, a importância do transporte metroviário, em relação ao ferroviário, é maior – enquanto aquele recebe diariamente cerca de 2,8 milhões de passageiros, este transporta aproximadamente um milhão e 300 mil todos os dias.

A empresa responsável pela administração dos trens em São Paulo é a CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Surgida em 1992 ela passou a ser responsável pela malha ferroviária do estado e continua com esse encargo até o atual momento.

Desde o último agosto tenho utilizado os trens da para ir até o meu local de trabalho. A CPTM conta com seis linhas, nomeadas de A a F e, como meu destino é a notória Vila Leopoldina, pego a linha B, que sai da estação Júlio Prestes, zona Oeste de São Paulo, e tem como destino final a estação de Itapevi.

Circular pelas linhas da CPTM é uma experiência antropológica incomparável. A fiscalização dentro dos vagões não é tão intensa quanto na Companhia do Metropolitano de São Paulo – o Metrô – e, por isso, os vendedores ambulantes fazem a festa e aproveitam para oferecer uma variedade de produtos.


Certo dia, cumpria o protocolo do cotidiano e, enquanto olhava pela janela do trem, quando este parara na estação Lapa, ouço uma frase inusitada que me chamou a atenção:
- Olha aí pessoal, o macaquinho que dá cambalhota. É a alegria da criançada. Vamo aproveitando que são as últimas unidades. E é só dois reais, tá muito barato.
Surpreso, levantei a cabeça para entender o que acontecia. Um vendedor ambulante que acabara de entrar, tirara de sua mochila algumas miniaturas de macaco e os botara no chão. Os pequenos brinquedos se moviam freneticamente e, por meio de seus longos braços articulados, dava cambalhotas ininterruptamente.

Atordoado, comecei a refletir sobre as perspectivas de um indivíduo como aquele, visto que, na minha opinião, não havia chances de vender muitos “macaquinhos” ao longo do dia. Não obstante, quando o trem estava próximo à estação seguinte – Domingos de Moraes – e o vendedor já se posicionava próximo à porta para trocar de vagão e tentar persuadir outros clientes em potencial a comprar seu produto, uma senhora se levanta. Com uma agilidade impressionante, ela tira de sua pochete uma nota de dois reais e chama o vendedor:
- Me vê um macaquinho aqui!

O ambulante, que já saía do trem, voltou e olhou para dentro do vagão, como para ver se realmente haviam o chamado. Ao avistar a senhora, ele puxou um de seus macaquinhos, e deu corda no brinquedo para mostrar que estava funcionando. O pequeno animal de plástico passou a dar cambalhotas em sua mão, assim como havia feito no piso do trem momentos antes. A senhora se mostrou satisfeita, pegou o objeto e entregou a nota ao vendedor.

Sorridente, este ainda conseguiu sair do vagão e entrar no seguinte e, acredito, com a esperança de encontrar mais uma “velhinha” disposta a comprar aquilo que ele garante que “faz a alegria da criançada”. E mais um dia se passava nos trens da CPTM.